AS INTERLOCUÇÕES SERTANEJAS NAS VOZES POÉTICAS FEIRENSES: PERFIL SERTANEJO - O VAQUEIRO - NO OLHAR TELÚRICO DE EURICO ALVES E DE JURACY DÓREA

Ana Angélica Vergne de Morais – UEFS

 

...E nascia ao toque das boiadas a vida na cidade

Eurico Alves

Era o sertão da seca contra um litoral da cana de açúcar

Roger Bastide

1. Interlocuções sertanejas nas vozes poéticas feirenses

Em torno da opulência da cana derramada no Recôncavo, a forte civilização da cana, sobrevivia a tudo, a civilização do pastoreio - na zona de Feira de Santana no grande campo do Jacuipe e das Itapororocas erguia-se então o pastoreio da vila de São José das Itapororocas. Observava-se o contraponto da vida pastoril no sertão e a supervalorização da cultura canavieira do litoral .

"Era o Brasil do Litoral com os canaviais e casas-grandes açucareiras, e o Brasil do Sertão com seus pastos, malhadas, currais e casas de fazenda".

Com a intenção de realizar uma pesquisa de fontes primárias e de eleger a cidade de Feira de Santana e Região como objeto dessa pesquisa iniciamos pelo resgate da história cultural e literária da cidade, feita em periódico mais antigo e ainda existente nos dias atuais. O enfoque foi dado ao jornal "Folha do Norte", Das leituras feitas em outras fontes chamou-nos a atenção a obra de Eurico Alves Boaventura, poeta feirense a caminho da modernidade literária, e que desde a década de vinte inicia o seu exercício literário escrevendo poemas de boa qualidade estética e alguns, caracteristicamente, ligados às suas reminiscências infanto-juvenis, passado de sua vivência na cidade feirense e em terra sertaneja.

Em seu livro de poemas intitulado 'Poesia", nas expressões poéticas, compõe o retrato de sua cidade, e lhe atribui características permeadas de carinho e de profundo sentimento telúrico.

Em seu romance "Fidalgos e Vaqueiros", a sintonia do real e do imaginário na construção de um sertão mesclado da aridez sertaneja e de toda poesia euricoalveana.

            Como parte de nossa busca, também, incluímos o trabalho não só literário mas do universo da arte plástica do artista Juraci Dórea, um outro filho da terra, que desde a década de 40, ainda garoto, explicita o interesse e a identificação com a cidade e a região unidos ao amor pelas coisas do sertão. Observador atento, transpõe para a tela o talento e a leitura tão esteticamente singular do seu em torno. Em sua primeira fase, um conjunto harmonicamente articulado do antigo e do moderno, na junção do Vaqueiro, personagem, com as linhas modernas da arte juraciana.

Eurico e Juraci encontrados no mesmo desejo e na mesma magia.

 Juraci conhece Eurico na década de 60 e então passa a ser o seu amigo e admirador, pois já era seu leitor e se constitui um dos primeiros divulgadores de sua obra, escrevendo artigos e ensaios, comentários sobre os textos do poeta amigo, e assim tirando do esquecimento esse extraordinário poeta e ensaista, evidenciando o seu valor como escritor baiano.

Para esse trabalho selecionamos uma parte a qual intitulamos de "Interlocuções sertanejas nas vozes poéticas feirenses". Isto porque estamos considerando o conteúdo poético como expressão não só da arte literária mas admitindo ser o trabalho plástico do artista Juraci imbuído de forte conteúdo estético e poético.

Consideramos como base teórica as leituras feitas em teóricos contemporâneos que discutem o repensar do cânone literário; questões de identidade e nação, o novo olhar de dentro para a importância das culturas regionais e locais, Sem perda da dimensão do universal, um olhar voltado na direção de escritores e escrituras não incluídas e ainda não reconhecidas, muitas vezes, pelo próprio conjunto social em que estão inseridos os referidos artistas. Não temos a intenção de atrelar o texto a um suporte teórico específico, mas, a partir das observações teóricas, evidenciar vozes que ainda estão distanciadas dos chamados "centros" de excelência artístico-literária.

Trata-se portanto de um comentário analítico-descritivo que se fundamenta, na descoberta de expressões identitárias feirenses ocorridas em tempo e espaço singulares na busca de um merecido espaço de reconhecimento.

Procuramos, então, registrar parte dessa memória cultural literária da cidade de Feira de Santana-Bahia, com um novo olhar, de início, na leitura de textos de alguns escritores da primeira metade do século XX, encontrados em fontes dispersas e em livros.

Privilegiamos a memória entendida como um fenômeno sempre atual, uma ligação do vivido com o eterno presente.

Valorizamos a peculiaridade cultural num contexto de alteridade, para enfatizarmos a função desses escritores, e incorporá-los, contemporaneamente, a um projeto mais amplo de resgate da memória cultural baiana.

Convocamos, inicialmente, entre essas vozes as de outros poetas feirenses que tivemos a oportunidade de recolher durante as buscas de expressões culturais e literárias locais, construtores de uma identidade feirense.

Buscamos, através dessas representações, a literatura local, entendendo-a como acúmulo de bens culturais. Selecionamos, portanto, de um lado, textos construtores de uma identidade que saindo das sombras do esquecimento, para a memória se permitam novas leituras; de outro lado, numa atitude de celebração, resgatarmos, para um tempo novo, os primeiros registros caracterizadores de uma identidade.

Em Maria José Carneiro, a presença do cancioneiro popular; Estefânia Menna no conjunto de versos retratando com ironia e humor o cotidiano da cidade; João Adolfo cognominado de “O cego” o trovador popular, no retrato do dia a dia, das festas populares da cidade e Aluizio Resende (considerado na cidade, pioneiro do resgate, pela poesia, de temática afro em Feira de Santana. Esses, são alguns dos embriões de um conjunto mais amplo de resgate da memória da cidade, prenunciadores de sua identidade, que aprofundaremos em outro ensaio.

Em Eurico Alves e Godofredo Filho, a caracterização da própria identidade, buscada nas lembranças revividas nos seus arredores, guardadas tão vivamente na memória e emolduradas, magicamente, nas palavras de poetas, "a caminho da modernidade". Eles, enquanto poetas distanciados de seu habitat, não deixaram que a sedução da cidade grande lhes ofuscasse o olhar que permitiria o desejo do resgate tanto de sua cidade quanto do seu sertão. A cidade simbolizando o local das realizações enquanto o sertão, guardado na memória, como forma natural de vida, intimidade de terra e gente.

Neles, a vivência sertaneja se caracteriza como uma relação visceral e esse sentimento telúrico é fortemente explicitado pela poesia. Em Eurico:

A noite vem pintando as coisas com tinta marron

E pondo resina nas finíssimas pálpebras do céu

E a tarde vem com preguiça abrindo os braços longos

Todos sujos de sombras

Por cima da terra...

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e então, ao longe, pelo meio da estrada semicurva, os mandacarus

 como dedos compridos

acenava um adeus de saudade ao sol que morreu.

 Eurico Alves, (Poema da minha tarde negrinha, fragmentos).

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Oh!, poesia selvagem que vive no sonho de aventura desta multidão

 heterogênea, que traz semanalmente nos

 olhos sonâmbulos e inquietos e nos gestos

 decididos a música do sertão,

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vozes de longe, de outras cidades perdidas no sertão e de cidades do mar,

vozes desconhecidas vivendo na algaravia musical das ruas da minha

 lírica cidade;

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de fazendeiros satisfeitos com a grita da chuva que brinca sobre o corpo

 da terra, fecundando-a, florindo-a;

 

 Eurico Alves, Minha cidade amanhecente, fragmentos

 

Manoel Bandeira em resposta a um convite do poeta Eurico escreve-lhe um poema em que o descreve assim:

 

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Eurico Alves poeta baiano

Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,

Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Santana

 Manoel Bandeira, Escusa , fragmentos

 

Numa dimensão de aprofundamento da forte relação dos poetas com a terra, e enfatizando o reconhecimento, que pela poesia ambos procuram resgatar, encontramos a relevância na figura tão comum e tão presente na vida do sertão - o Vaqueiro - Em Eurico:

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Estou no recanto da terra onde as mãos de mil virgens

Tecem céus de corolas para o meu acalanto

Perdi completamente a melancolia da cidade

E não tenho tristeza nos olhos

E espalho vibrações da minha força na paisagem

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Visto os couros do vaqueiro

E na corrida do cavalo sinto o chão pequeno para a galopada.

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Sou vaqueiro!

 EuricoAlves, (Elegia para Manoel Bandeira, fragmentos).

 Godofredo Filho, também, registrou, pelo poema, no longo "Poema a Feira de Santana" a sua enraizada ligação com a terra, com o seu sertão e compôs versos reveladores da profunda intimidade, homem e terra, brotada do sentimento de cumplicidade de tempos e espaços intensamente partilhados, todos guardados na memória. E assim a descrever

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Minha terra

Lindamente chantada no planalto (sic)

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a roça do meu avô com os carneiros, as cabras o tanque

 cana

 os caldeirões d'água

 meus tios engraçados

 os passarinhos

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 trovoada depois da seca cinco horas da manhã

 com o repique do sino

 minha infância morta

minha terra

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 juventude

 adolescência

 tristeza de partir.... ânsia de chegar

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 Juventude

 Adolescência

 Fragmentos de mocidade.

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 horizontes de minha terra que me educaram

 ainda quisera ser limitado por eles

 minha terra boa minha terra minha

 é lá que eu quero dormir ao acalanto, daquele céu tão manso

 dormir o meu grande sono sem felicidade ou tortura de sonho

 muito longo, muito longo

 dentro do enorme coração vermelho

 do chão florido.

 

Godofredo Filho, poema a Feira de Santana, fragmentos.

 

Poeta feirense de grandes vôos, com experiências poéticas para além dos mares, em terras galegas, Godofredo Filho já tem ensaios e artigos escritos pela ensaísta Jerusa Pires, entre outros.

 

 

 

2. Perfil sertanejo - o Vaqueiro - olhar telúrico de Eurico e de Juraci

 

No conjunto do perfil sertanejo, cenário já traçado por outros, a figura do Vaqueiro era vista como modelador da vida social e econômica do sertão .O Sertão que se fazia fazendo-se o pastor "com aguada, ferro e ferrão". Enxergava-se do pastoreio a sua figura escultural e primitiva. Em Tasso da Silveira, era "visto como ornamento e não como alicerce da economia nacional"; em Silvio Romero o Vaqueiro era “um tipo brutal encarado como amedrontador , com horipilante vestuário e só". "gente perversa e inútil pela aversão que tem ao trabalho da agricultura, um empregado nas fazendas de gado". Brutal pela vestimenta grosseira e rústica e pela sua qualidade de "monteador feroz".

O Vaqueiro, enfim, era visto como elemento sem relevância e às vezes, até intolerável, útil só ao trabalho, no mesmo plano do cavalo ou do boi. Ficou longo tempo no esquecimento. Mas, Eurico Alves, revela que, de início, ele era o próprio dono da fazenda, erguia o seu lar no deserto ensolarado, “nas pastagens naivas” - para ele a terra era o seu lar. Um verdadeiro fazendeiro que trouxe consigo a alegria de criar, no seu destino, delineando o cenário sertanejo da província. Para Eurico Alves o vaqueiro "redimiu a miséria do índio". E , é Eurico quem, na região de Feira de Santana, busca a recuperação da imagem do Vaqueiro, retirando-o do anonimato, para inscrevê-lo no espaço cultural literário, socializando com o leitor essas suas idéias. Em Eurico: "No côncavo das Serras, para além do Jacuipe e do Itapicuru, para além do Paraguaçu e do rio das Contas, as fazendas de gado ampliavam-se no Nordeste".

Em cada cena onde surge o sertanejo ou a rês apresenta-se-nos um grupo talhado em bronze ou em granito" , mas isso é pura literatura, muito bonito mas injusto - um estigmatismo histórico-literário, conceitos caducos e equivocados que precisam ser revistos". (E. Alves, Fidalgos e Vaqueiros).

O preconceito criado em torno do vaqueiro, o transformou, durante um bom tempo numa figura caracterizada como: "preguiçoso, sem coragem para o trabalho, com raiva de escravos libertos, fidalguete ( A Bagaceira - José A. de Almeida); Ideias que, segundo Eurico, são compartilhadas com as de S. Romero em "Os contos populares". E, Eurico rebate e diz que "aqui se amava o trabalho e os braços não se entorpeciam na paralisia da preguiça" e, vai mais além quando reconhece que, a partir da "República" da erupção do vulcão europeu, deu-se início ao declínio social do sertão e dos fazendeiros.

Mas, o Vaqueiro, também, ficou sendo visto por estudiosos como a figura dinâmica, o retrato do nômade mas essa análise não coadunava com a do vaqueiro da região ", na opinião de Eurico.

Olavo Bilac, no soneto Avatara, faz uma observação sobre o vaqueiro: “....e eu galopava, o albornaz, solto ao vento;...possuia tudo: o espaço, um cavalo e a bravura."

Oliveira Viana, no texto "Evolução do povo brasileiro" falando dos sertanistas dos séculos II e III revela que "esses se ampliaram até nós, traduzidos no viver do "andeiro incerto"; Ortega y Gasset analisando o perfil do nômade demonstra o quanto esse se distancia do vaqueiro da região feirense.

Eurico nos diz que ele tem pouso, embora rude e modesto, anda, viaja, trabalha desgarra-se das malhadas mas sempre vem dormir perto do curral. A terra o prende. A malhada gruda-lhe o passo; Gilberto Freire, em "Casa Grande e senzala" , o caracteriza como um Senhor, um fidalgo. Ele o descreve como proprietário, fidalgo sim, mas com intimidade com a terra, de quem arregaça as mangas para o trabalho cotidiano. ( Eurico Alves, Fidalgos e Vaqueiros)

Nelson Werneck Sodré, diz Eurico, pinta um retrato bastante pejorativo do vaqueiro, estabelecendo comparações com as experiências dos engenhos de açúcar aludindo às mudanças na cidade sob a interferência dos mesmos. Faz alusão à vestimenta - as roupas de couro - à alimentação.

Mas, acrescenta Eurico, é preciso se prestar mais atenção às coisas do oeste, da região. "É preciso que se conte a história de nosso vaqueiro" (Eurico Alves, Fidalgos e Vaqueiros) E assim o retrata:

Casa-se cedo, mal saindo da adolescência, tem casa modesta, humilde e pequena o que se atribui à sua incultura. Trabalha de sol a sol engurupitado no lombo do seu cavalo. Mal nasce o dia e ele sobe na sela. O que ele busca: a rês perdida, rastejar a vaca, de novo parida, que esconde a cria, vigiar o rebanho quando solto no tabuleiro ou na caatinga fechada. Toma o jaleco, pula da cama em meio ao "Pelo sinal" apressado e sai para o mato com "o café ainda no dente" O uso da vestimenta completa, só nos dias de trabalho de campo, mais intenso. A sua carreira presa ao cavalo, não conhece a limitação visual dos religiosas de Santana, da volta dos Meiras, de Minas, do rio das Contas onde a indumentária do aristocrata e o vestuário do plebeu não tinha diferença dos trajes da gente de outras áreas culturais do Brasil.

 A diferença, na região feirense, estava, exatamente, na indumentária de trabalho dos vaqueiros, singular para o homem que mais de perto se integrou na sua faina rude e áspera. É Eurico quem conta "Que vestimenta refletiria melhor o "processo de trabalho- um molde especial de trajar definindo uma cultura. - calção, perneiras, gibão, guarda peito, jaleco, luvas e chapéu" Eurico chama a atenção para a linguagem, no uso de vocábulos que caracterizam o sertanejo da região, que em alguns casos são comuns a sertanejos de outras regiões, mas outras são peculiares como: adjutório, a bata de feijão, roba-roça , a cacimba, piabando, meladinha entre outras.

Mas, o sertão não é só vaqueiro, nele se desenvolveram a altaneira casa- de- fazenda, a civilização do couro, como expressão de uma vida. Contudo, era o vaqueiro o eixo em torno do qual a vida se fazia. E ele saia à caça de mais pastos, na intenção de ampliar os já existentes. E então abria os espaços da vaquejada, arribando na poeira levantada pela cavalhada atrás da boiada. A cada pouso, a cada curral levantado, uma raiz mais funda se ia cravando na terra. Muitas e muitas marchas , muitos lugarejos, muitas vilas e cidades.

 

O vaqueiro, era diferente cuidava de malhadas e de múltiplos currais, era o corpo da terra desconhecida, até então, mas que se lhe tornava amante com a conquista, num gesto semeador de cidades ( Fidalgos e vaqueiros - E. Alves).

 

E tudo isso, Juraci Dórea - artista plástico feirense- procurou traduzir em ousadas e modernas linhas e o percebemos na leitura do conjunto de quadros cujo eixo temático é também o Vaqueiro. Considerando as afinidades nativas e artísticas entre Eurico Alves e Juraci Dórea inicia-se o diálogo cuja força se pode captar em Eurico pela eloqüência na descrição farta e generosa do que para ele era a figura fidalga do vaqueiro da região de Feira de Santana, um discurso centrado em experiências e vivências de um filho que distanciado, faz o resgate de um tempo na memória. Ele o faz pela palavra bem posta, bem escolhida bem elaborada e por ela - a palavra- o leitor se coloca em sintonia e pode perceber o quanto foi relevante para a história de Feira de Santana e Região as presenças do vaqueiro no desenvolvimento da vida sertaneja, e do poeta em sua capacidade estética de tão bem representá-lo. Em Juraci Dórea pela expressão exuberante de cores, capta-se a elegância de galope e a singularidade dos trajes nitidamente postos em cada um do conjunto de quadros a partir dos quais, como ele, o leitor descobre, na representação artística, as marcas da história do povo feirense na figura do Vaqueiro que ambos elegem como personagem e símbolo.

Queremos entender que esse canto de reconhecimento ao Sertão e ao Vaqueiro não deva caracterizar sentimento xenófobo mas um intenso desejo de retirar do esquecimento e trazer para a memória um tempo e espaço que, a partir da década de sessenta, começou a se expandir e a se concretizar no discurso literário do romance poético "Fidalgos e Vaqueiros" e fazer coro no diálogo que se inicia, então, entre a palavra de Eurico e a arte pictórica de Juraci expressa no conjunto de dez quadros nos quais ele coloca todo o sentimento sertanejo e o desejo de registrar essa figura singular do Sertão, o que contemporaneamente se amplia num grande projeto a que ele denominou de "Projeto Terra".

Ambos, no mesmo ponto de encontro e afinidade identitária fixaram o centro do seu diálogo no Vaqueiro e no Sertão e assim estenderam esse diálogo até a década de 80, tempo de publicação e de exposição desses trabalhos. .Eurico no livro publicado e Juraci na exposição de seus quadros (sua primeira fase) em local público, e de maior acesso de pessoas, considerado até a década de 80 ponto turístico e de encontro", o restaurante O Boiadeiroum marco da história da cidade, localizado à rua, também histórica, Senhor dos Passos.

Todos os que tiveram a oportunidade estar ou de passar em Feira de Santana e de fazerem refeições no "O Boiadeiro" foram contemplados com a arte de Juraci Dórea emoldurando as paredes do restaurante, ponto exclusivo de encontro de moradores e principalmente de turistas, lá, também, presentes nos dias de segunda feira- dia da grande feira - ao vivo, tropeiros e viajantes homens do sertão, - em transações pecuárias, na cidade.

A singularidade dos trajes em consonância com a fidalguia, igualmente , expressa na arte de Juraci. Podemos observar no diálogo com Eurico Alves que ambos expressam, pelo sentimento telúrico, a leitura de seu ambiente, no resgate do personagem caracterizador da cultura regional - o homem da caatinga.

Com essa nova leitura desejamos estabelecer uma articulação passado / futuro e ao mesmo tempo cultura / arte através das expressões, de um lado, a arte literária em Eurico, homem da terra, que na busca de reminiscência infantil e no reconhecimento de suas raízes e de valores culturais soube retratar com a convicção e autoridade de quem sabe do que fala, e então o personagem de outra margem, pelo seu discurso, é transposto e reconhecido; de outro lado, a arte plástica em Juraci Dórea, também filho da terra, que num gesto celebrativo e de homenagem ao sertanejo o inscreve, não com a palavra, mas com pincel, tinta e tela com os quais reúne e proclama povo cultura.

Valorizando os elementos naturais e utilizando o espaço do cotidiano do povo como um espontâneo cenário de arte, os dois compõem, numa perfeita articulação identidade/cultura. Eurico Alves e Juraci Dórea duas vozes que ecoam, gente da terra com um intenso desejo de gritar para o mundo a sua arte rasgando o seu espaço e marcando o seu tempo. A expressão do imaginário sertanejo, pela palavra e pela pintura traduzem o despojamento no jogo mágico que estabelecem Eurico e Juraci, e que no mesmo espaço e tempo, dimensionam o sentido mais social e aberto de suas obras.

Não os estamos inscrevendo numa linha da marginalidade, nem da cultura popular, nem tão pouco dos excluídos, mas entre os que distanciados do "grande eixo" do discurso canônico não tiveram o espaço merecido aos representantes da arte e da cultura de um lugar fora do "centro" estabelecido, para onde todas as atenções deveriam, devem e estavam, estão voltadas.

Intencionamos, com esse recorte, abrir uma pequena fissura e embarcar na leitura da inclusão e permitir que o trabalho artístico-literário desses dois seja reconhecido e legitimado como representação da arte baiana e da arte brasileira.

Embora o artista Juraci Dórea já tenha merecido exposições fora do país, bem como Eurico Alves já tenha sido contemplado com ensaios e artigos não alcançaram o lugar merecido no circuito da crítica artístico-literária do país, apesar das discussões contemporâneas estarem apontando novos paradigmas.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BOAVENTURA, Eurico Alves. Fidalgos e Vaqueiros. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA,  1989.

_____. Poesia.. Salvador: Fundação das Artes Empresa Gráfica da Bahia,1990.

FILHO, Godofredo. Irmã poesia. Rio de Janeiro:Tempo Brasileiro; Salvador: Secretaria de Educação do Estado da Bahia,1986

DÓREA, Juraci. Eurico Alves, poeta baiano. Feira de Santana: Casa do Sertão: Lions Clube de Feira de Santana, 1978.

 

 

Bibliografia Geral:

 

 

ANDERSEN, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Atica,1983.

BHABHA,K. Homi. Locais da cultura In: O Local da Cultura. tradução de Mirian Avila et alli.Belo Horizonte:UFMG, 1998.

ORTIZ, Renato.Cultura Brasileira e Identidade Nacional.São Paulo: Brasiliense,1986.

ORLANDI, Eni Pulcinelli.Discurso do confronto. Velho e novo mundo. São Paulo: Cortez, Campinas.EDUNICAMP,1990.

ZILBERMAN, Regina; MOREIRA, Eunice Maria.. Berço do Cânone Porto Alegre: Mercado Aberto,1998.